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Cristina Maria da
Silva[2]
"Eliminar de uma vez por todas o sentido das palavras, eis o objetivo do terror!" Jean François Lyotard
Compreendemos que o V Centenário de ‘Descoberta’ do Brasil surge como um processo que não encerra seu percurso em 22 de abril de 2000. Imagens têm sido projetadas, principalmente, em nossas telas, sobre diversos prismas, num clima de comunicação. O que não nos permite enquadrar os poderes que estão em jogo, na discussão sobre os 500 anos, como provenientes de uma única força institucional como o: econômico, o político ou as relações de gênero. Mas o encontro e a utilização desses e outros poderes, na construção de um ideário do que sejam esses 500 anos para o Brasil.
Sendo assim, nos afastamos das discussões que se detêm em abordagens sobre o poder da imagem, ainda que importantes. Pois, previamente consideramos que tanto do ponto de vista teórico como no desenvolvimento dos meios comunicacionais, temos sido tomados por imagens de poder, na abordagem do ‘descobrimento’ e do ‘redescobrimento’ do Brasil. E tal fato, tem marcado o processo de elaboração e de transformação de consciência social.
As interpretações sobre o que sejam as origens do Brasil são marcadas por um conjunto de imagens complexas e ambíguas, permeadas por uma “teia de relações” onde dominação, desejo, submissão, e desenvolvimento econômico parecem fazer parte de um mesmo sistema.
As leituras sobre o Brasil feitas, por exemplo, por Caminha, Prado ou Freyre não se configuram de forma clara e simples. Ao invés disso,
“se desintegram, como a nossa imagem numa casa de espelhos, deixando não uma essência básica (...) mas uma multiplicidade de reflexões, de representações e sentidos culturais que cortam a tessitura social...”(PARKER, P.54).[3]
Com o processo de "ficcionalização" do real, examinados por Augé[4], promovido no Brasil - sobretudo pela televisão-, elas se sucedem ininterruptamente e de forma silenciosa diante de nossos olhos disseminando “relações de poder”, produzindo realidades.
Os acontecimentos e as convenções sociais são transmitidos sem que possam ser analisados pelo espectador, e mesmo que exista um autor este se encontra ausente de sua consciência. As imagens transmitidas pela mídia surgem em nosso cotidiano e de forma familiar, fazendo-nos ter a sensação de que as escolhemos. Quando, na verdade, estamos envolvidos num processo mediante o qual optamos, mas não decidimos.
Entendemos que as imagens de poder elaboradas nesses 500 anos observando a análise foucaultiana. Na qual, o poder não pode ou não deve ser analisado como algo fixo em um único lugar, mas proveniente de vários lugares, por meio de relações movéis e desiguais.
Sendo assim, nos referimos a projeção de imagens, na teoria e na mídia televisiva, sobre o que seja nossa realidade, compreendendo que, de modo algum, os sujeitos nelas representados ou que as observa ou analisa estão num campo de passividade e neutralidade. E mesmo aqueles que as produzem não determinam seus sentidos.
Portanto, não podemos abordar o desenvolvimento da cultura contemporânea, eletronicamente mediada, de modo unilateral ou determinista, mas numa rede complexa de “interações sociais”. Sugerimos que, atualmente, a fronteira entre o real e ficccional não é nítida, ainda que num lugar ou num não-lugar ela exista.
Embora não tenhamos apreendido esse processo identificamos que as imagens de uma nação ou de uma nacionalidade brasileira têm sido difundidas num clima de comunicação e isto tem marcado nosso imaginário coletivo.
Em 09 de novembro de 1996, a Central Globo de Produções – CGP-, através do Programa “Globo Repórter” lança seu Projeto 500 anos[5] envolvido num clima de comunicação. Entendemos que este tem sido um ‘processo comunicativo’, não apenas de uma transmissão de mensagens de um transmissor para um receptor. Há uma institucionalização de bens simbólicos difundidos em objetos e imagens que perpassam a “arena social”. Na qual os diversos segmentos sociais têm expressado, ainda que de modo desigual, suas análises sobre o significado desses 500 anos.
Consideramos que este projeto resgata mitos e os reelabora tendo como suporte a concepção das raízes histórico-sociais do Brasil. História e mito se fundem e mesmo que os elementos da estrutura social brasileira sejam constituídos de modo arbitrário, nas imagens e nos discursos esses se encontram ajustados numa lógica e numa “situação estratégica”.
A difusão desse V Centenário surge marcada pela idéia de intervenção do Estado no curso da história e moldada pela relação entre o intelectual e o poder. Com o ressurgimento da idéia de ‘descobrimento’ do Brasil resgatamos em nossos estudos o pensamento do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), que formulou, primeiramente, uma História para Brasil, pois percebemos que existem elementos semelhantes entre sua proposta e o clima de comunicação promovido pela Central Globo de Produções.
Refletimos, a partir disso que os vetores teóricos e mediáticos têm sido marcantes na construção de nosso imaginário. Mas o que é o nosso imaginário hoje?, nos indaga Augé [6].
Para responder a essa questão não basta fixarmos o olhar, unicamente, no presente, mas retornarmos atentamente a um passado que está sempre a espreita, nos sondando numa relação entre o próximo e o distante ou através de uma história "entre dois-mitos". Uma característica própria das relações coloniais, que de certo modo bloqueia o acesso a rupturas e a uma modernidade efetiva.
Varnhagen traçou um perfil de um país independente e de um passado glorioso por meio de um Projeto Nacional Brasileiro, sob a proteção do Imperador D. Pedro II. De acordo com José Carlos Reis,[7] com o processo de independência a jovem nação precisava de historiadores para legitimar-se. Sendo assim, necessitava de um passado do qual pudesse orgulhar-se para avançar com passos firmes rumo ao futuro.
Varnhagen tomará para si esta tarefa, sendo o primeiro "grande inventor do Brasil", através de uma história de visão heróica do colonizador português e de suas contribuições para a construção da identidade da "nova nação". O colonizador havia trazido em si a representação do progresso, das luzes e da civilização. Portanto, a trajetória mais sólida seria dar continuidade aos valores trazidos através das caravelas.
O passado colonial devia, portanto ser reconstruído como suporte de um Brasil branco e europeu. A interpretação de Varnhagen articulará os interesses dos "descobridores" do Brasil, e longe de ter um abordagem imparcial e objetiva, sua teoria esteve comprometida com a dominação colonial e justificou a submissão do povo e os direitos das elites.
Embora o delineamento de sua obra esteja ligado a construção da nação, legitimando o poder do Estado e do colonizador, ratificando uma "psicologia do colonizado", Varnhagen irá projetar isso de maneira mais perceptível ao envolver-se numa leitura do encontro das três raças: o índio, o branco e o negro pelo processo de miscigenação, na qual defenderá o branqueamento.
O autor irá projetar todo o seu desejo em discursar sobre a nação brasileira ao fazer sua leitura e sua tradução, em 1877 da carta que é considerada a “Certidão de Nascimento do Brasil": a carta de Pero Vaz de Caminha.
A edição da Carta de Caminha, guardada originalmente no Torre do Tombo, em Lisboa, tem sido publicada e traduzida em diversas línguas e suas edições são sete: a do Padre Manuel Aires de Casal em 1817, no Rio de Janeiro ( da qual foram retiradas as passagens referentes à sexualidade); em Lisboa em 1826, na Coleção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas; por Varnhagen, no Rio de Janeiro, em 1877; na Rev. Inst. Hist. E novamente em Lisboa, seguidamente nos volumes das Ciências e da Torre do Tombo, publicados em 1892, para celebrar o descobrimento da América; no Livro do centenário, no Rio de Janeiro, 1900 e, no mesmo ano, na Bahia, com duas transcrições, uma em português da época e outra já do início do século 20.
Esta carta é considerada a “Certidão de Nascimento do Brasil”, mesmo tendo sido publicada apenas no século XIX. Do Ponto de vista literário, ela se insere num período denominado Quinhentismo, que se refere a fase que ainda não se podia ainda falar em uma literatura brasileira, mas da introdução da cultura européia delineando as suas ambições, intenções e visão de mundo dos “descobridores”. Caminha expõe claramente os objetivos que impulsionaram os homens europeus: a busca por bens materiais e o prolongamento dos domínios da fé cristã.
Segundo o seu relato, o olhar do português se volta primeiramente para a nudez dos indígenas. Ele afirma que as mesmas “nem fazem mais caso de encobrir suas vergonhas”, como se já o tivessem feito. Os portugueses traziam em si os parâmetros de uma sociedade que tinha uma moral e costumes que, aparentemente poderiam não se enquadrar na organização social existente no “novo mundo”. Mesmo assim, estes iniciam suas conquistas através do corpo feminino, antes mesmo da exploração das terras e das riquezas.
Os índios são vistos e apresentados com extrema satisfação e entusiasmo, suas características físicas impressionam os portugueses. As índias são descritas com muita precisão de detalhes que revela, o impacto de suas feições sobre o escrivão da tropa e dos outros navegadores. São caracterizadas como bem novinhas e gentis, bem feitas, redondas e de vergonhas graciosas, e que em seu ponto de vista “eram tão inocentes que mesmo nuas não pareciam mal e não havia nisso desvergonha nenhuma”.
Se por um lado aproximaram-se do povo indígena tolerando-os, para amansá-los com o intuito de tirar proveitos de sua mão-de-obra e explorar a riqueza de suas terras. Por outro, como ressalta Paulo Prado em “Retrato do Brasil", os colonizadores se sentem enormemente atraídos pelas índias, pois exalavam uma sensualidade que eles não conheciam nas mulheres européias, elas assaltavam a imaginação dos recém-chegados pelos encantos da nudez total.
Assim as primeiras imagens de poder sobre a formação dos "mitos de origem" ou "ideologia das relações de gênero", fazendo aqui uma alusão a Parker[8], surgem imbricadas pelas concepções de dois olhares, em sua essência portugueses, o de Caminha e o de Varnhagen, num jogo de interpretações e de fascínio. Na idealização de mentes desejantes e sonhadoras diante das delícias de uma terra entre o céu e o inferno e muito além do bem ou do mal. Ou não?
Varnhagen, de alguma maneira, pode ter embriagado-se nas palavras de Caminha na elaboração de sua tradução, e talvez não nos seja possível definir o que é próprio de um ou de outro. Pois, como nos afirma Certeau, "toda leitura modifica o seu objeto" (CERTEAU, P.264.1994).
Compreendemos que não há como dissociar os discursos e as interpretações sobre a construção da nação brasileira da sexualidade, e sobretudo as referências sobre a mulher. A visão que irá cercar as representações sobre as origens do Brasil, no período do “descobrimento”, como nos indica Parker[9]:
“é uma visão de paraíso e de inferno(...) uma visão centrada na questão da vida sexual, na sensualidade e no erotismo, não menos que no potencial óbvio da utilização econômica e da colonização.” (p.33).
Percebemos que as imagens que surgem relacionadas a “descoberta” e “redescoberta” do Brasil surgem imbricadas ao corpo feminino. Este toma a forma de um símbolo muito complexo, pois ao nosso ver, este tem sido mais do que um objeto de prazer e de desejo, mas um espaço imprescindível para analisarmos as relações de poder na constituição da “nova terra” e buscarmos perceber que significados são nele combinados nas representações imagéticas de um modelo cultural ideal.
Este carrega a força simbólica da “perda” dos valores europeus, devido a exuberante sensualidade das mulheres, porém também do corpo feminino vem o ventre originador da população brasileira.
No entanto, não permanecerá este sendo o palco de formação de uma “identidade nacional”? Não terá este sido o corpo feminino marcado pela legitimação dos “mitos de origem” ou “ideologia das relações de gênero”?
Consideramos que ao analisarmos o processo de expansão, conquista e ‘redescoberta virtual’, o corpo feminino torna-se um espaço imprescindível para ser estudado, enquanto bem simbólico, pois “o corpo é reflexo da sociedade(...) ao corpo se aplicam sentimentos, discursos e práticas que estão na base de nossa vida social (...) é emblemático de processos sociais” ( FERREIRA, 1994).[10]
Dos relatos e impressões que nos são apresentados, no entanto, conhecemos não propriamente a representação fidedigna de Caminha, ou o retrato das relações aqui existentes, mas a leitura de Varnhagen. Esta, por sua vez, será seguida por Gilberto Freyre, denominado por Reis[11], como um " neovarnhageniano".
Embora a análise de Freyre traga uma original contribuição historiográfica por sua inovação teórica-metodológica, nele predomina o discurso das elites. Por intermédio de uma renovação de fontes e numa linguagem adocicada, Freyre conserva a realidade brasileira numa abordagem continuísta, patriarcalista e conservadora. Mesmo vendo a História por inúmeras lados, faz disso um instrumento para construir uma tese sem censuras ou reservas para o deleite das elites patriarcais.
Enquanto Varnhagen se coloca otimista quan \n'; document.write(barra); } } changePage();
Ao optar por um novo mundo nos trópicos, Freyre fez um reelogio ao colonizador. Este não havia somente promovido um passado glorioso para a sociedade brasileira, mas tinha sido o criador de algo inusitado. Mesmo substituindo o conceito de raça pelo de cultura, o autor assume uma postura onde ambos estão estreitamente relacionados. Portanto, os dois interpretes do Brasil, acima citados, fazem parte de uma mesma moeda, cunhada pelas naus e pela "Casa - Grande".
A noção de tempo, em Freyre, é sem relógio, sem pressa. Em sua ampulheta " o que se tem não é areia ou água, que descem rapidamente, mas um melado mel que desce em um fio viscoso e lento" [12].
Com o desenvolvimento das tecnologias comunicacionais o tempo acelera-se, mas do que nunca se utiliza relógio ou relógios para marcar o que teria sido a origem de tudo, o momento onde a nação brasileira entra para a História. Freyre não deveria ter se preocupado, outros surgiram para legitimar ou para fornecer modelos para o país por outras imagens, não menos complexas e ambíguas.
Referimo-nos a coincidência ou não de termos mais uma vez um projeto de âmbito nacional buscando definir um perfil para nossa realidade, o da Central Globo de Produções (CGP). Esta assume um papel de "nova historiadora" com um forte poder de argumentação: 17 emissoras de TV, e 20 estações de rádio. Como resistir aos encantos de uma "mestra de cerimônia" tão glamorosa e expressiva? Uma “anfitriã” que tenta nos persuadir ter chegado antes de todos para relatar uma pretensa “verdade” sobre onde estejam nossas raízes e seja o início de nossa história? O que rege todo esse otimismo quanto ao futuro da nação?
Consideramos que existem características comuns entre o pensamento de Varnhagen e o Projeto 500 anos. Ou será pura casualidade o fato do jornalista Roberto Marinho ocupar na Academia Brasileira de Letras, o lugar outrora de Varnhagen?
No entanto até onde a nação atualmente necessita desse projeto? E será que como Varnhagen a Rede Globo tem a mesma imprescindibilidade para a nação brasileira ou ela nos faz acreditar que sim?
De acordo com Maria Rita Kehl, a pretensão da Rede Globo ao difundir-se através de "bens simbólicos", no cenário nacional, não é o de unificar a nação enquanto "povo", mas enquanto público. Portanto, seu projeto de integração nacional surge mais a nível do imaginário do que de modo uniformizador e determinante. Sua intenção, talvez seja, seduzir o máximo possível através de suas impecáveis imagens, legitimando seu espaço.
Temos, atualmente, o prosseguimento de uma história construída pelas elites com uma estreita relação entre o intelectual e o poder. Diante de tantas disparidades sociais, o Presidente Fernando Henrique Cardoso declarou em Hannover, Alemanha, referindo-se ao custo financeiro para participação do país naquela exposição que, na verdade, " o que importa é a imagem".
E em seu pronunciamento, que foi vinculado no Jornal Nacional da Rede Globo, em 13 de dezembro de 2000, durante a visita do Presidente da África do Sul, ao Brasil, afirmou que “costuma dizer que gostamos de ser misturados e que quem olha para ele pode perceber que no Brasil: branco é um conceito relativo”.
O que aparentemente pode parecer uma consciência crítica, é a legitimidade de uma postura astuciosamente assumida tendo como suporte a compreensão e a análise de uma realidade fornecida pelo conhecimento.
Mais uma vez não há como buscar no olhar das elites o conflito, ele pode tudo, por isso somos marcados por discursos e imagens que tentam nos persuadir que vivemos numa "Democracia Racial", apesar de nossos graves problemas sociais e desigualdades econômicas.
Os "mitos de origem" permanecem sendo elementos, essencialmente, relevantes na reflexão da sociedade brasileira. Por isso, consideramos que estes permanecem, mesmo que revestidos com outras roupagens em nossa arena social. Parker[13], afirma que para analisar a sexualidade brasileira é preciso que se dê um passo atrás na história, pois os sentidos a ela atribuídos merecem ser estudados devido a sua influência incomum em nossa história cultural.
Até que ponto teoria e mídia podem se tornar "armas culturais"? Pretextos de leis que legitimam? Produzindo mais que um modelo discursivo, sendo elas próprias "inventoras" do real e do vivido?
A Central Globo de Produção tem estabelecido um padrão heteroerótico, branco e dominante, ao referir-se aos repertórios sobre masculinidade, como nos indica Medrado[14]. Como se não tivessem acompanhado o desenvolvimento das discussões históricas sobre Gênero e Sexualidade, se é que estes tenham avançado. Será que em uma sociedade arraigada por uma cultura patriarcal poderia ser de outra maneira? “Ser branco é realmente algo relativo no Brasil”?
Alguns têm discutido sobre uma "transformação nas intimidades" e na ocorrência de uma "reflexividade institucional". No entanto, a "Casa-Grande" ainda não se desmanchou completamente em nós. Cotidianamente, isto se apresenta, seja por meio de imagens da mídia, de grupos musicais e de sua letras na projeção de uma sexualidade utilitarista, onde tudo o que seja considerado feminino é subordinado ou excluído.
Não podemos ou não devemos crer que um modelo de sexualidade corresponda aos desejos e anseios de todo os sujeitos em uma sociedade. Porém, sua imposição, através de várias instâncias desiguais e móveis, demonstrando a necessidade de que temos uma sexualidade a tornam relevante. Sendo assim, consideramos ser oportuno analisar a relação entre sexualidade e sacanagem na sociedade brasileira.
Resgatamos o conceito de sacanagem, que não tem tradução para outros idiomas, sendo portanto próprio da cultura brasileira, por percebermos como este apresenta-se intrinsecamente associado a idéia de sexualidade, este, segundo Parker[15],
"...liga noções de agressão e hostilidade, brincadeira e diversão, excitação sexual e prática erótica num único e complexo simbólico. Usada de forma positiva ou negativa, indicando injustiça e violência (simbólica), brincadeira, gozação, obscenidade e ofensas sexuais, materiais eróticos e pornográficos(...) sacanagem indica desobediência as leis em decoro(...) corresponde a formas de transgressão ou "rebelião simbólica" (p.159).
Será este um
instrumento de rompimento das normas sociais? Ou fará também parte da construção social de uma
verdade ou melhor, como diria Foucault, de um fato discursivo ?
Não nos interessa, do ponto vista sociológico, discutir a
veracidade de uma (des) coberta ou não, mas importa-nos
nesses 500 anos nos determos naqueles que nos falam, os lugares de onde
nos falam e o que nos falam. Longe de pensarmos numa operacionalização de rupturas históricas, nos
direcionamos para a análise da permanência e resgate de mitos e discursos.
Ainda que o cenário social se diferencie e novos modelos de feminilidade
circunscrevam-se na trajetória nacional, estes seguem senso
cercados pelo contexto social que produziu um passado não muito distante.
Ainda que cercados por dispositivos que nos prendem ao
passado, pretendemos traçar "micro-resistências" fundando
"micro-liberdades". Michel de Certeau, nos
traz uma grande contribuição ao afirmar que não se pode admitir que haja uma
total passividade diante dos meios de comunicações e do sistema capitalista. E
antes, que possa vir a crítica de se estar sendo
incoerente ao tomar como marco teórico Foucault e Certeau,
adiantamos que assumimos tal atitude fazendo nossas as palavras, do segundo
autor, que afirma ser uma antiafinidade eletiva tão
importante quanto uma relação de complementaridade.
Neste sentido, através de uma "prática
silenciosa" como a da leitura e da análise pretendemos
peregrinar pelas imposições projetadas nos signos verbais ou icônicos.
Articulando aquilo que nos parece
desconexo e arbitrário e que nos é
apresentado aos pedaços, por meio de " Corpos,
Imagens e Poderes".
Concebemos a construção do conhecimento como oscilação
entre aqueles que inventam ou modificam. Neste sentido uma visão mecanicista já não responde ao
contexto dinâmico do mundo
contemporâneo. Numa transposição de espaços militarmente dispostos, textos e
imagens só tem sentido na percepção de seu leitores,
numa relação de táticas e astúcias milenares.
Com a “explosão de imagens” e sentidos e o desmoronamento
dos dogmatismos sobre o real, talvez ainda não tenhamos entendido que na
prática científica não caminhamos sobre
‘solo firme’, mas num mundo em que ainda não aprendemos a olhar.
Sendo assim, talvez novos sentidos possam surgir na
interpretação de nossa realidade social tendo a hermenêutica como fundamento
epistemológico na construção do conhecimento, guiando-nos por vôos imaginários,
na metamorfose do texto pelo o olhar que viaja, criando espaços de sombra e
escuridão diante da luz implacável
das Imagens de Poder.
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[1] Este artigo é um desdobramento da pesquisa “Análise Social das Imagens de Poder, Sexo e Sacanagem no V Centenário de ‘Descobrimento’ do Brasil,
vinculada à Linha de Pesquisa do Mestrado de Políticas Públicas: Poder,
Linguagem e Comunicabilidade Governamental da UECE.
[2] Pesquisadora da Fundação Cearense de Amparo à
Pesquisa - FUNCAP, sob a orientação do Dr. Ubiracy de Souza Braga, Departamento
de Ciências Sociais; Universidade Estadual do Ceará- UECE.
[3] Richard Parker.
Corpos, Prazeres e Paixões. A Cultura Sexual no Brasil Contemporâneo. São
Paulo: Editora Best Seller,
s/d.
[4] Marc Augé,
A Guerra dos Sonhos: Exercícios de Etnoficção. Campinas, SP: Papirus,
1998.
[5] Material registrado em vídeo e analisado no Projeto
de Pesquisa do Dr.
Ubiracy de Souza Braga: A Sociedade como Valor- de – Informação para o CNPQ.
[6] Ob. cit.
[7] As identidades
do Brasil: de Varnhagen a FHC. Rio de Janeiro:
Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999.
[8] Richard Parker.
Corpos, Prazeres e Paixões. A Cultura Sexual no Brasil Contemporâneo. São
Paulo: Editora Best Seller,
s/d.
[9] Ob. cit.
[10] Ferreira, Jaqueline. O Corpo Sígnico
In Saúde e Doença: Um Olhar Antropológico.Org. Paulo César Alves et alli- Rio de Janeiro: Fiocruz’,
1994.
[11] Ob.cit.
[12] Kujawski apud Reis. Ob.cit.
[13] Ob. cit.
[14] Benedito Medrado. O
Masculino na Mídia. Repertórios sobre a Masculinidade na Propaganda
Televisiva Brasileira.
Dissertação de Mestrado em Psicologia Social. São Paulo: PUC, 1997.
[15] Ob.cit.