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Jadir Peçanha Rostoldo[1]
A imprensa não é um produto natural de uma sociedade, mas é o resultado da necessidade do homem em expressar seus sentimentos, suas opiniões, suas atitudes, sua postura diante da vida e da realidade social. Qualquer meio de comunicação sempre está impregnado pela posição social dos seus interlocutores, pois o autor nunca esta ausente da obra que produz.
Segundo Prost (1992:142), a imprensa “sendo uma janela aberta para o mundo, ... é ao mesmo tempo a expressão de um espaço de convívio ampliado”, desencadeando efeitos e influências sobre a vida social. Neste sentido ela funciona como um espelho onde as pessoas podem se reconhecer ou não. Para que este reconhecimento seja o mais próximo possível da realidade, busca-se conferir das informações uma garantia aparente de autenticidade, obtidas geralmente pela introdução de técnicas jornalísticas e objetos de interesse e conhecimento do público.
As ilustrações (desenhos ou fotografias), os artigos específicos (moda, decoração, turismo, esporte, etc.), a publicidade (propagandas), juntamente com as informações de fatos e acontecimentos contribuem para a construção de novos valores e novas formas. Prost (1992) argumenta ainda, que um novo modo de vida e talvez de ética esteja sendo modelado pela imprensa e os valores e as idéias da sociedade se transformam a partir dela. As pessoas julgam que estão pensando por suas próprias cabeças, mas acabam repetindo as opiniões dos cronistas contemporâneos.
Encenar o real, produzir textos em que os fatos se apresentem como fantasias do real, onde a informação é sempre construída de maneira essencialmente mágica, é a análise que Serra (1980) faz da imprensa. O fato não deve ser apenas noticiado, mas sua redação deve conduzir o leitor a fazer parte dele. O texto ou as imagens não nos passam pura e neutra informação.
Os meios de informação buscam então, produzir um efeito de apresentação da realidade, isto é, colocam-se como o meio através do qual os fatos reais são transmitidos ao público. Serra (1980) acredita que os leitores passam a enxergar a realidade pelos olhos da imprensa (o meio), tendo em vista que a partir de seu próprio olhar não conseguiriam enxergá-la. A autenticidade e a credibilidade do meio se sobrepõe ao próprio real, demonstrando a amplitude e a onipresença dos meios de comunicação.
A maneira como os fatos reais são transmitidos pela imprensa à população, está indiscutivelmente vinculada aos interesses de grupos ou indivíduos, geralmente ligados as classes dominantes. No Espírito Santo esta postura ficou latente na análise de Muniz (1997), que problematiza a distância entre o poder e o povo na imprensa capixaba. Em suas considerações a autora esclarece que, apesar do meio de comunicação transmitir problemas cotidianos da população, ele se reserva o direito de escolher quais problemas devem ser divulgados, distorcendo claramente o caminho da imprensa, que deve ser o de abordar a sociedade como um conjunto e não de forma excludente.
Esta postura conservadora perante a linha editorial de uma publicação, conduz a uma visão reducionista da sociedade, produzindo o efeito de desmobilização política. A imprensa desta forma funciona como reprodutora e não como objeto de reflexão da sociedade.
O movimento modernista, capitaneado pela Semana de arte Moderna de 1922, fez surgir várias revistas de vanguarda no Brasil. Neste período a imprensa e a literatura se confundiam, e as novas revistas demonstravam esta ligação através de seus artigos e posturas. A sociedade e a cultura passaram a representar o objeto de análise dessas publicações, sendo a vida do país refletida desde então em suas páginas.
Os homens das letras se refugiaram nestes veículos de comunicação, que revelaram muitas figuras importantes da literatura brasileira. Escritores e jornalistas desfilaram por suas páginas, ora com publicações de artigos, ora de crônicas, poesias e todos os tipos de escrita literária. A revista periódica de informação passa a se distinguir dos outros veículos de comunicação por sua especialidade na ordenação e interpretação dos acontecimentos. Os fatos não são mais apenas descritos, mas sobretudo expostos em seu significado.
A Revista “Vida Capichaba” surgiu, no Espírito Santo, no rastro deste movimento. Circulou inicialmente em abril de 1923, sob a direção de Garcia Rezende, e se tornou a mais expressiva publicação do período. Foi o órgão mais atuante no espaço literário das décadas de 1920 a 1940, representando o veículo de comunicação de maior circulação no Estado.
Segundo Bittencourt (1998), a “Vida Capichaba” congregava o que havia de melhor no jornalismo e nas letras espírito-santenses, constituindo-se, assim, em preciosa fonte de indicações e informações sobre as décadas de 1920 a 1940, no Espírito Santo, além de influenciar decisivamente a imprensa capixaba contemporânea.
Identificada desde o seu primeiro número, publicado em abril de 1923, como uma revista quinzenal, “Vida Capichaba” apresentava ilustrações, literatura e notícias do Brasil e do mundo. Sua tiragem inicial foi de 1000 exemplares, impressos na tipografia da imprensa estadual. Circulava em bancas de revistas ao custo de 500 réis a unidade, e através de assinaturas ao preço de 14$000 a anual, 7$000 a semestral e 5$000 a trimestral.
No segundo número os preços foram aumentados para 1$000 o exemplar, e as assinaturas para 26$000 a anual, 14$000 a semestral e 10$000 a trimestral. Esta alteração provocou uma nota explicativa publicada no número 2 da revista, em 15 de março de 1923, onde eram relatados os motivos que levaram ao aumento. Essa explicação demonstra sua preocupação com a opinião dos leitores, que representavam a sociedade consumidora do produto.
Após o terceiro número da revista, deixou de ser publicada por 2 meses, reaparecendo em Agosto de 1923, tendo como redatores Elpidio Pimentel, Manoel Lopes Pimenta e Aurino Quintaes. Passou a ser identificada apenas como revista quinzenal ilustrada, atualizando seus preços para 1$000 o número avulso, 1$200 o número atrasado, 12$000 a assinatura semestral e 6$000 a trimestral. Os preços eram considerados altos, o que mais uma vez resultou numa nota no número 4 da revista justificando-os. Circulava na capital e no interior, tendo representantes por todo o Estado.
Em suas publicações iniciais, era composta de cerca de 36 p. As propagandas dos anunciantes e colaboradores se localizavam nas primeiras e últimas páginas, as páginas centrais eram divididas em seções e artigos avulsos, principalmente literários. Algumas seções: Vulto e Livros, informava todos os livros publicados no Espírito Santo e os mais importantes no país; Quinzena Elegante, era uma verdadeira coluna social da época; Conto Quinzenal, trazia contos de amor; Versos, publicava textos de escritores e leitores; As Nossas Grandes Indústrias, apresentava as maiores indústrias do Estado; Vinhetas, publicava pequenos contos e crônicas; Do Meu Livro de Notas, artigos sobre a mulher e suas transformações na sociedade e Indicador Profissional, relacionava os profissionais que ofereciam serviços a sociedade.
A revista era recheada de fotos dos membros do governo, dos políticos, da alta sociedade e seus filhos, de cenas da vida capixaba e das belezas naturais do Estado. Editava uma seção de esportes, onde predominavam o futebol e o remo, e também uma acerca do cinema, informando os filmes em cartaz e tecendo comentários sobre os mesmos. Citações, contos, crônicas e recortes de obras de vários autores, nacionais e internacionais, completavam seu conteúdo.
No ano de 1930 a “Vida Capichaba” se entitulava somente como uma revista ilustrada que circulava todas as quintas-feiras, e não mais quinzenalmente. Mantinha na sua direção, como redatores e proprietários, Manoel Lopes Pimenta e Elpidio Pimentel, possuindo agora oficina própria. Comerciava seus exemplares, avulsos ou através de assinaturas, em todo o Estado e algumas cidades de Minas Gerais, contando com vários colaboradores e representantes. Seu preço continuava alto.
A estrutura básica da revista se mantinha, porém com alterações importantes. As propagandas não eram mais dispostas apenas nas primeiras e últimas páginas, mas intercaladas com os demais artigos, demonstrando assim o aumento de importância e força dos anunciantes. As caricaturas passaram a fazer parte da revista, assim como as notícias internacionais e as notas políticas. Algumas seções deixaram de existir e outras surgiram, como a Alfinetadas, que exibia comentários sobre os membros da sociedade sempre se utilizando de apelidos e caracterizações; e as Sociaes, que representava a coluna social da época.
Sua postura exclusivamente literária foi alterada, apesar de continuar mantendo um espírito conservador ligado as elites. Nos idos de 1930, a revista já comportava matérias desenvolvidas por colaboradores independentes e não se responsabilizava pelas opiniões emitidas pelos mesmos, conferindo-os plena liberdade de pensamentos. A publicação de caricaturas também demarcava uma importante mudança, pois através dos seus desenhos e escritos, se afirmava como a mais pura e sutil forma de crítica e representação da sociedade.
A imprensa é um poderoso instrumento na medida em que atua no mesmo nível ético de instituições permanentes como a escola, a igreja, as associações comunitárias, as profissões liberais, as organizações locais, nacionais ou internacionais dedicadas ao bem comum. Ela serve melhor o público se conseguir incorporar os padrões morais da sociedade.
A opinião pública se orienta, muitas vezes decide e quase sempre raciocina, não pelas coisas em si mesmas, mas pelas feições que lhes damos, pelas imagens que os veículos de comunicação lhes atribuem. Por exemplo, opiniões ou julgamentos imprecisos, desinformados, apriorísticos sobre coisas e pessoas, homens públicos e instituições, assuntos internacionais, de trabalho, de capital, de relações sociais, de direitos humanos e outros, são algumas das armas que a imprensa pode utilizar para direcionar a tendência de uma sociedade (Bahia, 1990).
O espírito da imprensa tende a ser essencialmente o espírito público, desta forma a elite dominante busca produzir uma maneira de se incorporar a este processo, no intuito de através de influências manter sua dominação. Os interesses privados, são colocados em evidência e disseminados, contribuindo assim para direcionar as atitudes e a construção do público. A vida privada, como um produto da imprensa, é incorporada ao domínio público, se tornando um importante instrumento de disseminação dos interesses das elites.
O universo da vida privada passa a ter um contato direto com a sociedade, veiculando um novo modo de vida, de moral e de ética. Novos valores e novas normas são difundidas, visando sua incorporação pelo público, fazendo com que a imprensa seja um espelho em que a sociedade possa se reconhecer.
A revista “Vida Capichaba”, enquanto um veículo de comunicação abrangente, funcionava como a expressão de uma espaço de convívio ampliado. De uma maneira branda e discreta, contribuiu na modelagem da vida cotidiana de seus contemporâneos. O público acreditava estar agindo à sua maneira, mas na realidade estava seguindo os valores e as idéias disseminadas pela publicação.
Na páginas da revista podemos verificar que, praticamente, todas as fotos inclusas se referem ao circulo privado da sociedade. São fotos das festas de aniversário, batizado, casamento, posse de políticos ou militares, de crianças, de homens e mulheres provenientes da elite. Poucas são as fotos do povo, de suas manifestações ou de seu cotidiano. Desta forma, a partir da imagem, é construído um imaginário social que, dominado pela elite, determina as atitudes dos outros grupos sociais.
A dimensão privada também não reconhece fronteiras em relação aos espaços físicos, ocupa os espaços públicos sem nenhuma restrição, adotando-os como um de seus domínios. Os cinemas, teatros, restaurantes e outros ambientes historicamente públicos, são cooptados pelo privado que, controlando-os, determina suas programações e projetos. O público se torna secundário, um mero coadjuvante.
Outra postura que reconhecemos na revista que retrata a sobreposição da dimensão privada sobre a pública é a publicação de artigos de resposta. Alguns colaboradores não concordam com o que foi escrito por outros, e passam a publicar artigos de réplica. Esta atitude trás a tona sentimentos, posições e ideologias particulares de determinados autores, que passam a integrar a vida pública. A população acaba se identificando com uma das correntes, e inconscientemente agrega estes novos valores as suas atitudes.
A influência da elite dominante se mostra sempre presente nas publicações, o privado domina o espaço público da revista. Percebe-se que os fatos não eram tratados pelo prisma do público, da sociedade enquanto coletividade, mas sim em função de interesses dominantes.
Devemos entender que a passagem do privado ao público não é um processo rápido e pacífico. O privado é uma estrutura construída por parte da sociedade, que passa a se relacionar com a estrutura primária, o público, o coletivo. As contradições ficam aparentes, e é neste momento que a imprensa interfere. Utilizando-se de seu poder de penetração, favorece as elites dominantes, o público é engolido pelo privado. O interesse de poucos se sobrepõe as necessidades de muitos.
Os valores privados, divulgados sistematicamente se tornam naturais, e como tudo que se torna natural, imune a críticas. O público os incorpora, dando-lhes sustentação. “A ilusão da independência alimenta o conformismo” (Prost, 1992).
O acesso a informação é um direito público, assim como a publicação de todo e qualquer artigo é uma obrigação da imprensa. Contudo, os empresários-jornalistas atuam no âmbito privado movidos pela lógica do lucro e do interesse. Seguindo este raciocínio muitas informações são manipuladas pelos poderosos, resultando em uma apresentação distorcida ao público, ou simplesmente sua não publicação.
A imprensa, constituindo-se em um instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social, coloca no mercado, prioritariamente, produtos vinculados a este conceito. Agregada a esta postura, devemos também identificar a relação das publicações com os anunciantes e colaboradores, que exercendo o poder que lhes é dado, influenciam decididamente a postura do meio de comunicação.
Esta postura discriminatória fica evidente, quando analisamos uma publicação levando em consideração a importância que ela dá aos assuntos das minorias. Como os grupos sociais, não atrelados as elites dominantes, são representados ou mesmo se não são representados.
Outro fato importante é a distribuição do espaço físico do veículo de comunicação, que na maioria das vezes é demarcado por seções que identificam a estratificação social. O espaço, dito, politizado é privilegiado perante o espaço marginal. Este espaço marginal caracteriza as minorias, que afastadas dos setores dominantes ficam restritas as seções menos privilegiadas, reafirmando assim a hierarquia social da ordem vigente.
Os assuntos e fatos tratados nos artigos da publicação, também são outros dados importantes. A partir deles podemos reconhecer a posição e postura social dos autores e para quem eles estavam escrevendo. O público leitor passa a ser selecionado a partir desta concepção, que direciona os artigos para os consumidores que interessam.
Estas características podem ser percebidas claramente na “Vida Capichaba” a partir de suas capas. Elas ilustram, em imagens coloridas, paisagens naturais ou pontos turísticos e, principalmente, personagens políticos importantes ou representantes da elite social. Nunca representantes ou cenas dos grupos secundários. Desta forma, fica latente sua postura em reafirmar a estratificação social, onde as minorias, entendendo-se ai os operários, os negros, as mulheres e os rejeitados pela sociedade, não podem ocupar o mesmo espaço que os dominantes.
Os artigos noticiosos e literários da revista também seguem estas mesmas características, não retratam assuntos referentes as minorias. Todos estão vinculados a temas relacionados com a elite dominante. O que fugia a este regra eram notícias internacionais, que se faziam mais importantes do que as do cotidiano marginal local. A seção “Bazar de Informações”, demonstrava bem esta postura, ela se prestava a reproduzir notícias de outros países, mesmo que não tivessem nenhuma conexão com o contexto do Estado.
Os negros e os operários não tinham seu cotidiano, suas representações culturais e sua manifestações estampadas nas publicações. Só estiveram presentes em artigos de datas comemorativas. Na revista de número 225, de 01.05.1930, se publicou um artigo de nome “A Festa do Trabalho”, em comemoração ao dia do trabalho, onde os trabalhadores foram lembrados como elementos importantes no desenvolvimento do Estado, e contraditoriamente a realidade, elevados ao mesmo patamar de toda a sociedade.
Os negros, também só foram retratados com certa importância no número 227 da “Vida Capichaba”, de 15.05.1930, quando a revista comemorava a Abolição da Escravatura. Estampou-se em sua capa “Meu Deus! Já não há mais escravos em minha terra!”, e publicou-se um artigo entitulado “13 de Maio”, onde se retratava a importância do acontecimento e se reproduzia fotos dos “heróis” do movimento: Princesa Isabel e José do Patrocínio.
Dentro destas características, também não podemos deixar de citar o caso da mulher, que mesmo tendo sua igualdade perante os homens defendida em alguns artigos, aparece na maioria deles com um aspecto maternal e frágil. As senhoras e senhori \n'; document.write(barra); } } changePage();
Analisando esta questão, entendemos que a imprensa não pode se desviar de seus principais deveres e compromissos morais. Sua postura tem de ser imparcial, dando espaço igual a todos os grupos. Acolhendo diferentes versões de um fato, evita o alinhamento deliberado ou intencional com esta ou aquela facção.
Seu objetivo principal deve ser a honestidade, no sentido de dar voz as minorias, acolhendo contradições e expondo claramente os fatos, de modo que as notícias e os anúncios sejam transparentes e confiáveis. Deve ser imparcial, objetiva e responsável, alcançando na sociedade um conceito de instituição livre e capaz, acima de qualquer interesses, refletir o bem comum.
Um veículo de comunicação esta destinado a apresentar os caminhos e atitudes de uma sociedade. Esta apresentação nunca estará totalmente desvinculada de influências, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, que serão sempre fatores importantes a considerar. Por outro lado não podemos deixar de perceber que, a informação não é uma via de mão única, ela corre em todas as direções.
A imprensa é o reflexo e o resultado do relacionamento que mantém com a sociedade que a cerca, e consequentemente do relacionamento que esta sociedade mantêm com todos os outros elementos que a completam.
Utilizando-se de instrumentos sutis de exploração psicológica os meios de comunicação tem o poder de manipular a população, condicionando comportamentos e atitudes dos indivíduos, em particular, e da sociedade, em geral. A comunidade, impregnada de informações tendenciosas, passa a aceitar passivamente o “status quo” social e econômico.
A revista “Vida Capichaba”, enquanto um veículo inserido na sociedade capixaba, representava esta postura da imprensa. Ela, além de ter sido um elemento de definição da sociedade, foi também um instrumento de sua reprodução. As elites reproduziam os conceitos e atitudes propostos pela revista, e ao mesmo tempo eram reproduzidas por ela.
Além disto, a revista sobrevivia por causa da sociedade, que dependia dela para sustentar suas posturas e atitudes. Cria-se uma relação de dependência e reprodução mútuas, onde a defesa e a manutenção das elites dominantes é o objetivo principal.
Esta atitude, pode ser percebida a partir das imagens que acompanham a publicação, desde a capa até as caricaturas, passando pelas fotos e os anúncios ilustrados, a preocupação maior era a elite. Mostrar suas atitudes, seus programas, seus interesses e preocupações, assim como direcionar os anúncios e propagandas para atender a sua demanda.
O relato das festas das elites era uma marca predominante na publicação, contribuindo assim para a reprodução e disseminação dos valores desta classe. A seção “Sociaes” também representava esta relação entre a revista e a sociedade. Figurava em todos os números, relacionando os aniversários, os casamentos e as festas de personagens da elite social capixaba. Todos os anúncios eram seguidos de comentários a respeito dos envolvidos: filiação, titulação, posição profissional e importância social. Mais uma vez fica latente a preocupação em apresentar uma classe específica, vinculada a imagem dominante e ao poder. A revista reproduz e é reproduzida pela sociedade.
Entendemos que a imprensa deve ser um veículo de notícias e opinião, nunca abandonando suas principais funções: a de informar e a de formar. Deve buscar sempre a liberdade de expressão, aumentando assim sua capacidade de resistência à influência do anunciante ou às pressões do poder.
Praticando um jornalismo em que a responsabilidade social e moral sejam o vértice condutor, a imprensa gera o seu próprio destino. Conferindo status as questões públicas, pessoas, organizações e movimentos sociais, fora do âmbito da elite dominante. Reconhecendo que sua ética é fator preponderante na definição da moral de uma sociedade, a imprensa assume seu principal papel, o de representar a causa e a consequência de todos os movimentos sociais.
Uma sociedade é construída a partir de vários elementos que interagem em um mesmo espaço físico e temporal, representa um contexto multilinear, onde novos objetos são apresentados a todo o momento, muitos incorporados e outros rejeitados. Um destes objetos é a imprensa, que abordando a sociedade como um conjunto, permite que o cotidiano, enquanto dimensão privada da vida social, caia no domínio público.
O Estado do Espírito Santo não tinha quase nenhuma representação nacional, adotando uma postura de subordinação e dependência em relação aos acontecimentos do eixo Rio-São Paulo. A sociedade era predominantemente masculina e sua economia basicamente agrária, onde todos dependiam da colheita e do preço do café no mercado internacional. Quase ninguém colocava as mãos na terra, pois a maioria da população urbana era de comerciantes e funcionários públicos. As mulheres exerciam o papel de donas de casa, cuidando dos filhos e da economia doméstica. Pacheco (1998) acrescenta que, na cidade de Vitória havia o predomínio dos indivíduos de cor branca, porém, a miscigenação era evidente. Os poucos pardos e negros que conseguiram se infiltrar na sociedade o fizeram como indivíduos e não como grupo. O modelo dominante era o oligárquico-agrário-tropical-exportador.
A vida política capixaba vivia, em 1930, um momento de instabilidade, devido a crise política nacional provocada pela ação da Aliança Liberal. A Revolução de 1930 provocou alterações no comando político do Estado, que passou a ser governado por um interventor federal. Os políticos locais e as classes conservadoras, dominantes, foram logo cooptadas e as diretrizes getulistas foram implantadas, dando a política do Estado um caráter mais nacional. A imprensa passou a sofrer censura da nova ordem política, culminando com o empastelamento do jornal A Gazeta em 14.02.1930. A economia, apesar da crise, continuava tendo como base o setor cafeeiro.
A formação de uma sociedade, segundo Vasconcellos (1993), advém de certos elementos que as definem e que lhes dão consistência e identidade. A articulação deste conjunto de elementos estrutura o imaginário da sociedade, ou dos diferentes grupos presentes nela, num certo momento. Este imaginário social acaba por definir aquilo que é importante e aquilo que não é, o que dá significado à vida num determinado local e em certo momento do tempo.
Assim também se produz a sociedade de Vitória, suas múltiplas identidades são resultados de todos os elementos que contribuem na construção da vida social da cidade. Vasconcellos (1993) descreve a cidade de Vitória, em fins dos anos 20 e início dos 30, como uma cidade bastante tradicional, controlada no âmbito social pelas elites clássicas. Acrescenta que esta postura reprodutora é fruto da pequena dimensão de sua vida cultural e social, dando a ela um ar de provincianismo.
Concluímos que a revista “Vida Capichaba” era um destes elementos de construção da sociedade capixaba, reproduzindo os interesses e costumes das elites dominantes. A população em geral era tratada como consumidora, atores coadjuvantes na construção da realidade que interessava a grupos determinados.
A revista refletia a sociedade da época e agia como um instrumento determinante de tendências, um referencial de atitudes, um modelo a ser seguido e não apenas um representação do cotidiano. A publicação se identificava com a perspectiva reprodutora de interesses individuais ou de determinadas classes, funcionando como um elemento de manutenção de um padrão da ordem. Era um elemento inserido no contexto social, um verdadeiro meio de comunicação de massa capixaba, utilizado pelas elites para transmitir seus padrões e interesses, reafirmando seu poder.
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